O livreiro de Cabul - Asne Seierstad

Resenha da Mikaela
O Livreiro de Cabul, da norueguesa Asne Seierstad, publicado pela editora Record, é um exemplo de como um livro – reportagem pode ao mesmo tempo encantar e informar. A história é um relato da jornalista que passou três meses vivendo com uma família afegã, convivendo com os costumes, passando pelas mesmas restrições e transitando entre fronteiras de sexo e condições econômicas.
Vivendo e comendo com eles, Seierstad descreve desde o ambiente em que todos dormem às relações familiares. Sultan Khan – cujo nome foi devidamente trocado para preservar sua identidade – é o chefe de uma família numerosa, que conta com duas esposas, filhos, irmãos e a própria mãe. Sendo um livreiro bem- sucedido, as condições econômicas dos Khan são melhores do que a maioria dos afegãos, o que não significa que eles vivam luxuosamente.
Mesmo para quem nunca leu nada sobre a realidade dos países do Oriente Médio e também para quem gosta do estilo de A Cidade do Sol, esse livro é recomendado, especialmente pelas histórias emocionantes e tristes, que nos fazem repensar a nossa própria cultura, como os casamentos sem amor, a vaidade precisando ser escondida do regime talibã, os sonhos femininos de ser independente sendo esquecidos... A autora dá voz a personagens (pessoas reais) diversos como as esposas de Sultan, a mãe dele, o filho, a irmã... Todos com histórias próprias e relatos da cultura afegã. As mais emocionantes são das mulheres da família, com suas visões e opiniões tão poucas divulgadas.
Autoritário, controlador, machista e pouco propenso a perdoar, Sultan Khan se torna quase o antagonista de uma história que marca o sofrimento de tantas mulheres da sua família. Mas os angustiantes relatos da prostituição forçada de jovens viúvas afegãs mostram que ele não é o único e nem de longe o pior.
O Livreiro de Cabul é uma reportagem delicada e emocionante, tão real que parece transmitir o sufocante calor embaixo da burca e a aspereza da areia nos dedos dos pés. Vale a ressalva de que o verdadeiro livreiro se indignou pela maneira como foi retratado e lançou um livro, Eu sou o Livreiro de Cabul, publicado aqui pela editora Bertrand Brasil.
Honestamente, é claro que a autora deu sua visão ocidental de como as coisas são em um país completamente diferente do seu, outras pessoas poderiam dizer outras coisas, mas a visão do verdadeiro livreiro sobre a história é a de um chefe de família que não sabe dos sentimentos das mulheres e suas tristezas, então, embora ele se sinta injustiçado, não dá pra acusar a autora de não ter compreendido o que se passa na cabeça das afegãs da família "Khan".
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