Arrabal e a Noiva do Capitão - Marisa Ferrari

Arrabal e a Noiva do Capitão
Marisa Ferrari
386 páginas
Editora: Novo Conceito - Novas Páginas
Sinopse:Giordano e Giuseppe são idênticos na aparência, mas suas almas não poderiam ser mais diferentes. O bravo Giordano é o capitão-chefe da Guarda Real. Giuseppe é um ator de coração puro e alegria contagiante que viaja com sua trupe para se apresentar nas praças e castelos da região. De caráter inflexível, Giordano tem como sua maior missão proteger o Rei. Por sua vez, o sonhador Giuseppe deseja escrever uma peça de teatro com diálogos, o que seria uma inovação para a época. Embora não sejam propriamente amigos, os dois irmãos vivem uma espécie de acordo de cavalheiros, respeitando o espaço um do outro e lidando com o delicado estado de saúde de sua mãe. Até que a formosa Luigia acaba com a paz da família Romanelli... Arrabal e a Noiva do Capitão nos transporta para a incrível Nápoles do século 18, magistralmente reconstruída por Marisa Ferrari. Uma história que resgata a magia do teatro e nos convida a compreender a beleza que existe nas contradições.

A literatura nacional mais uma vez dá provas de como investir em escritores da nossa terra pode render um caminho cada vez mais bonito para a escrita no Brasil. Arrabal e a Noiva do Capitão é um trabalho meticuloso, poético e obviamente escrito por alguém que ama as palavras e os seus personagens.

Acho que nunca li um livro que me fizesse sentir tão na Itália quanto esse (acho que só posso comparar com a sensação que tive lendo Comer, Rezar, Amar), especialmente a cidade de Nápoles do século XVIII. Se já é difícil ambientar uma história em outro país com competência, imagina fazer isso em outra época. Pois é. Marisa Ferrari conseguiu. Com detalhes minuciosos sobre as tradições e costumes da cidade, do panorama político mundial e com algumas expressões em italiano, você se sente, de fato, fazendo parte daquele mundo, coisa que não é fácil fazer em muitos livros.

Além do triângulo amoroso entre Giuseppe, Luigia e Giordano, o livro traz a histórias dos personagens que os cercam, como a doença de Gioconda, a mãe dos gêmeos - e a dedicação do marido, Carlo - e como cada pessoa da trupe de teatro - Mamma, Dottore, Vincé, Francesca, Gigi, Caterina e, por fim, Vittoria - encontrou o seu caminho na arte, além da própria Luigia, claro. Só que os outros personagens - principalmente Vittoria - brilham tanto, que eu achei a protagonista meio sem sal, apesar de ser uma moça inteligente e corajosa.O destaque do livro é Arrabal - nome que Giuseppe usa - com sua máscara de Arlecchino, trazendo vida e a poesia.


O amor vazou irremediável pela íris e interrompeu o ritmo do universo e nos deixou assim, num átimo suspensos, no torpor do encontro cúmplice das órbitas, até que um piscar de olhos sobreveio e pôs todas as coisas de novo a se moverem e fez a vida, pequenina, voltar a exatamente ao que era antes - poema de Arrabal, encontrado nas páginas 75 e 318


Agora, acho que uma das coisas que eu não gostei foi o destaque à vida pregressa de cada um dos personagens da trupe. Tá certo que era importante mostrar como eles foram encontrados, mas o destaque dado à trupe era de tal modo que parecia que a história principal - da paixão de Giuseppe e Giordano por Luigia - era esquecida, o que podia quebrar o ritmo da leitura. Como já falei, por causa disso, a própria Luigia ficou meio sem sal - lembrando um pouco o jeito eternamente indeciso da Elena, de The Vampire Diaries - e o romance com Giordano não se desenvolveu como eu gostaria.

Acho que todos esses detalhes - que, claro, eu sei que enriquecem muito a história - poderiam ser colocados em anexo no fim do livro para não prejudicar o ritmo de leitura. Mas se você gosta dos personagens, isso não atrapalha muito...

Mas o final é imprevisível. Sério, mesmo gente que não gosta do estilo mais poético de escrita poderia dar uma chance pelo final incrível e criativo. De maneira nenhuma eu poderia imaginar que terminaria assim, com essa solução. A autora foi muito inteligente por ter distribuído pequenas pistas ao longo do texto, mas nunca sem revelar o que aconteceria. Acho que dá até pra reler a história com outro olhar depois de saber certas coisas no final...

A diagramação está boa e a capa é bonita e, se você ler até o fim, percebe que a paisagem escolhida faz total sentido com a história. Foi um trabalho muito cuidadoso da editora para fazer uma história tão legal.

Em geral, o livro é de uma prosa bem literária, a que muitos não estão acostumados. Mas se você gosta de textos mais poéticos, inteligentes, de pesquisa rica, que retratam a beleza dos palcos, e, principalmente, localizados na Itália, esse livro tem todos os ingredientes.



Avaliação (de 0 a 5): 4,0

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3 comentários:

  1. Olá!

    Eis a prova que a pesquisa faz um bom livro, e não somente a história. Acho que a Marisa Ferrari é uma historiadora além de escritora, e que também deve ser descendente de italianos (Com esse sobrenome, quem não iria suspeitar?).
    Ah, e a capa é muito linda!

    Um abraço!

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  2. Olá Mikaela!
    Eu amo livros que se passam na Itália. Acho que eu sou italiana, só não tenho nada em papel para provar rsrs já li Comer, rezar, amar também, e leio tudo que eu vejo que se passa lá. Nem preciso dizer que fiquei interessada no livro, não é? Porém, é uma leitura diferente, como você disse. Não sei se seria algo bom para eu ler. Nunca li nada, pelo menos eu não lembro, em prosa literária. Porém, vou dar uma chance a ele. A capa está realmente linda... e eu olho e penso: Ah, Itália! rs

    Beijos

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  3. Oi Letícia,
    Isso é verdade, uma boa pesquisa fundamenta bem um livro e pode torná-lo muito mais interessante. É capaz mesmo de a autora ser descendente de italianos, faria sentido.

    Oi Vitória,
    Esse livro é Itália pura! Até mesmo trechinhos de italiano são colocados nas falas e você se sente ouvindo mesmo. É, de fato é uma prosa mais literária, pra se ler com calma...


    Bjs!

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