Auri, a anfitriã - Aline Moura e Bárbara Almeida


Se eu fosse a dona desta casa, convidaria a entrar e tomar um café. A conversa, certamente, pode ser longa. Contudo, não tenho autoridade para tal convite. Isso está fora do meu alcance. Sou tão refém do sistema que tudo rege quanto às mulheres que em mim vivem. Eu, a própria prisão. E elas, minhas hóspedes. Prazer! Chamo-me Auri. Gosto quando dizem que eu sou a anfitriã. Estou aqui para convidá-lo a ler uma história. Na verdade, um cruzamento ininterrupto de histórias. Elas não são minhas, mas de minhas protegidas. Esqueça a má fama construída por meus antepassados. Quero que conheça meu labirinto através do que tenho a contar. Venho oferecer as memórias revividas por Maribel, Jéssica, Cinara e Patrícia, mulheres que, ao desvendarem os enigmas do passado, foram intensamente tocadas pelo cárcere. Entre, mas não sente. Vamos passear pelas vidas das pessoas que dão sentido a minha existência.

Um livro real, crítico e, ao mesmo tempo, com a sensibilidade da literatura. Auri, a anfitriã é um livro-reportagem que relata três histórias dentro do Instituto Penal Feminino Desembargadora Auri Moura Costa, em Itaitinga, no Ceará. Mas não é só isso. Quem já leu A Casa, de Natércia Campos, ou até mesmo A Menina Que Roubava Livros, conhece esse estilo de narrador não-humano.

No livro de Natércia Campos era a própria Casa, em A Menina que Roubava Livros era a Morte, e em Auri, a anfitriã, temos o próprio presídio, Auri, carregada com a sensibilidade feminina e quase maternal a observar a sociedade que pune e não ressocializa, bem como os caminhos que levaram suas detentas até lá, contando tudo.

Mesmo sendo literário, todas as histórias são reais. E que histórias! Temos as duas estrangeiras da Espanha que foram parar na prisão cearense, uma detenta que conseguiu o direito a frequentar a Universidade Federal do Ceará (UFC) e também uma encarcerada que teve sua vida quase dizimada pelo crack.

Auri, com muita sagacidade, analisa a sociedade condenada à miséria desde o nascimento, bem como o machismo que acaba levando muitas mulheres ao presídio para, naquele mundo isolado, sofrerem o abandono dos parceiros (muitas vezes os culpados por elas estarem ali) e até da própria família.

“Tem gente que vira bicho. Gente que vira anjo. E até quem subverte todos os sentidos”.

A leitura é muito rápida, fluida e sem complicações. Você acaba se envolvendo com as histórias contadas, temendo por elas e pensando nelas muito depois de ter lido, o que, por si só, já é algo incrível, tendo em vista que essas mulheres são, muitas vezes, completamente esquecidas da sociedade.

Com um trabalho independente de diagramação (e muito bem realizado por Ed Borges) e repleto de fotos do lugar (de autoria de Daniel Muskito), o livro é lindo, não deixa a desejar para nenhum publicado por editoras. As autoras, formadas em Jornalismo na UFC, conseguiram o financiamento através de doações pela plataforma Catarse. O livro-reportagem já ganhou vários prêmios - e a admiração de todos que o leram.

Auri, a anfitriã, traz a realidade até você. Não de forma brusca e chocante de muitos livros-reportagem, mas com a delicadeza que só a literatura pode proporcionar.

Saiba mais: https://www.facebook.com/auriaanfitria?fref=ts

Avaliação (de 0 a 5): 5,0




Photobucket

0 comentários:

Deixe seu comentário