Ninfeias Negras - Michel Bussi

Giverny é uma cidadezinha mundialmente conhecida, que atrai multidões de turistas todos os anos. Afinal, Claude Monet, um dos maiores nomes do Impressionismo, a imortalizou em seus quadros, com seus jardins, a ponte japonesa e as ninfeias no laguinho.
É nesse cenário que um respeitado médico é encontrado morto, e os investigadores encarregados do crime se veem enredados numa trama em que nada é o que parece à primeira vista. Como numa tela impressionista, as pinceladas da narrativa se confundem para, enfim, darem forma a uma história envolvente de morte e mistério em que cada personagem é um enigma à parte - principalmente as protagonistas.
Três mulheres intensas, ligadas pelo mistério. Uma menina prodígio de 11 anos que sonha ser uma grande pintora. A professora da única escola local, que deseja uma paixão verdadeira e vida nova, mas está presa num casamento sem amor. E, no centro de tudo, uma senhora idosa que observa o mundo do alto de sua janela.


Título: Ninfeias Negras
Autor: Michel Bussi
Editora: Arqueiro
Ano: 2017
352 páginas



"O crime de sonhar eu consinto que seja instaurado"

Estou simplesmente impressionada (sem trocadilhos com os pintores impressionistas) com o final deste livro. A história é orquestrada de tal forma que realmente fica difícil prever o desfecho da obra. Mas ela consegue nos atingir.

Ninfeias Negras se passa na França, em Giverny, um dos vilarejos mais lindos do mundo (e viagem dos sonhos para qualquer um que aprecie a arte ou a pratique - minha mãe, por exemplo) e local em que um dos maiores pintores impressionistas Claude Monet pintou as suas Ninfeias.

A Ponte Japonesa, de Claude Monet - criada em 1920 -1922.


Se você não sabe nada sobre Monet, o Impressionismo ou Giverny, vai terminar o livro quase um expert do assunto. 

E é nesse cenário idílico que Jérôme Morval, o oftalmologista da cidade, é encontrado morto. A partir daí, o investigador Laurenç Sérénac e seu assistente Sylvio Bénavides vão tentar ligar os pontos para descobrir o assassino. Enquanto tudo isso acontece, acompanhamos também as vidas da pequena prodígio Fanette, a linda e entediada professora Stéphanie e a misteriosa idosa que sabe de tudo o que acontece ali.

Isso durou treze dias. O tempo de uma fuga.
Três mulheres vivendo num vilarejo.
A terceira era a mais talentosa; a segunda, a mais esperta; a primeira, a mais determinada.
Na sua opinião, qual delas conseguiu escapar?
A terceira, a mais novinha, chamava-se Fanette Morelle; a segunda, Stéphanie Dupain; a primeira, a mais velha, era eu.
Página 32
É incrível como tudo se conecta perfeitamente sem que você faça a menor ideia. Até quase o final, você passa o livro completamente perdida em suposições, pistas que não vão a lugar nenhum, desconfianças de quase todos os personagens e mergulhada nas belezas estonteantes da cidadezinha, da poesia dos momentos e dos sentimentos dos personagens.



Por ter tanto conteúdo a ser passado, tantos detalhes, a leitura não é tão rápida assim. Demora-se um pouco mais para ler. Isso não significa que não seja uma leitura gostosa. É simplesmente um daqueles livros que demandam mais tempo para serem absorvidos completamente, que nem O Circo da Noite, que eu já resenhei aqui. É preciso de tempo para apreciar a beleza das descrições.

A casa de Claude Monet, em Giverny.


Enquanto você acompanha os sonhos da pequena Fanette pintando nos trigais as paisagens de Giverny (ou junto com seu amigo Paul e o insistente Vincent), vai também entrando na paixão avassaladora do Sérénac por Stéphanie e se perguntando por que a velhinha que narra a história fala tanto que algo ruim vai acontecer. E o mais inquietante: qual o seu papel na história toda??

As velhas daqui são condenadas a usar véu, ninguém quer vê-las. É assim que as coisas são. Até em Giverny, o vilarejo da luz e das cores. As velhas são condenadas às sombras, à escuridão, à noite. Inúteis. Invisíveis. Elas passam. E são esquecidas.
Para mim, é melhor assim.
Página 27

 A única coisa que impede Ninfeias Negras de ser um livro perfeito é que parece que nós, leitores, somos levados a somente olhar e nunca participar da investigação. Porque por mais que você elabore suspeitas, a real verdade passa longe e todas as pistas se mostram falsas. Então acho que poderia ser enxugado um pouco mais alguns detalhes para que o derradeiro final fosse mais rapidamente alcançado e pudéssemos ver um pouco mais dele.

O Moinho de Chennevières que tanto aparece na história.


Os vários pontos de vista do livro também podem confundir no início e dar mais voltas ainda num mistério cada vez mais longe de solucionar.

Nós aqui vivemos dentro de um quadro. Estamos emparedados. Achamos que estamos no centro do mundo, que valemos a viagem, como se diz. Mas o que acaba escorrendo em nós é a paisagem, o cenário. Uma espécie de verniz que nos cola ao cenário. Um verniz diário de resignação.
Stéphanie, página 166.

Mas quando ele é solucionado... Meu Deus do céu! Quando chega a essa revelação, você percebe o quão sombria essa história é. Dá uma indignação, uma vontade de entrar no livro e puxar a personagem para fora dele para finalmente vê-la feliz...

A frase que eu coloquei no começo da resenha resume com perfeição tudo o que acontece no livro, embora fiquemos perdidos tentando descobrir o que ela significa.

Mas nem tudo está perdido, afinal, e Michel Bussi consegue fechar Ninfeias Negras com um laço tão bonito e bem amarrado que tenho que concordar que é um final bem cinematográfico.

A edição é muito bonita, a fonte é boa para ler, só a divisão dos capítulos (que deve vir do original) não são interessantes para separar as narrações direito. A capa vai fazer muito sentido no final, mas ela é um contraponto ao vilarejo coloridíssimo.

A Arqueiro mandou um caixa linda e um marcador de páginas de ninfeias.


Ninfeias Negras, de Michel Bussi, é um livro que precisa ser lido. E relido, até, para captar os detalhes despercebidos. Passando por todas as pistas do começo, o final é de tirar o fôlego. É ricamente escrito e bem delineado. Se eu for a Giverny um dia (assim espero!), vou lembrar dele com certeza.

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