Ilha das Flores

"Existe um lugar chamado Ilha das Flores. Deus não Existe", é a partir desta frase polêmica e que causa um certo impacto nas pessoas que o curta 'Ilha das Flores' dirigido por Jorge Furtado é iniciado. A genialidade de colocar essa afirmação, tem um objetivo de nos testar, medindo o que mais choca em cada ser humano, uma simples frase ou o que vai ser mostrado depois dela no filme. "Deus não existe" também vai servir como metáfora (figura de linguagem muito presente em toda a película) para a desigualdade, um dos temas do curta; já que para 'Deus' todos são iguais perante ele, e na Ilha das Flores o 'reinado' da desigualdade se mantém firme.

Nota: 4/5

"Ilha das Flores" é para muitos, um símbolo de representação da desigualdade social. Enquanto no mundo animal, os animais tiram da natureza o que é necessário para sobreviver na sua cadeia alimentar. Os seres humanos apesar de terem um telencéfalo altamente desenvolvido, um polegar opositor e 'liberdade'; como é exemplificado no filme, através de um modesto tomate se constrói um ciclo social capitalista que é baseado em uma cadeia piramidal, na qual elementos como capital, trabalho, poder de consumo caracterizam sua posição social. Sendo assim a única forma de adquirir alimentos e posses é através do dinheiro e trabalho, arrancando dos mais desfavorecidos a oportunidade de moradia e comida.

Jorge Furtado afirma no curta que o telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor deram a possibilidade ao ser humano de gerar inúmeros melhoramentos no planeta. É a partir dessa afirmação, que o diretor utiliza da ironia para fortalecer os seus argumentos. Vale destacar algumas imagens do curta que merecem a atenção do espectador: o holocausto e a explosão da bomba atômica. Em que o Jorge faz perguntas não-verbais: Será que o homem realmente provoca melhoramentos? Podemos considerar a bomba atômica, entre tantas outras criações humanas, melhoramento? Se os judeus possuem características intelectuais a qualquer ser humano, o que caracterizou o desmerecimento à vida dos próprios?
"Ilha das Flores" utiliza de metáforas e ironias de forma 'fina' para contar a sua narrativa de forma didática (talvez seja esse, o principal motivo de ser muito utilizado por professores no ensino médio e fundamental) e precisa, Jorge Furtado também se usufrui de dados científicos e históricos, e de uma constante repetições de termos para reforçar seus argumentos. A agilidade nas transmissões de informações e no pouco tempo em que as imagens se mantém na tela; rematem as coisas que muitas vezes passam invisíveis aos nossos olhos, fazendo o próprio espectador voltar a assistir o filme para gravar todas as mensagens que o diretor quer transmitir.

Ao final, uma frase de Cecilia Meirelles é citada: "Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.". Nesse momento a narrativa é rompida em um compasso que estimula a reflexão do próprio espectador, nos questionando se a liberdade é privilégio de poucos ou todos a possuem.
"Ilha das Flores" é crítico, irônico, didático e acima de tudo reflexivo. Mesmo após 28 anos de seu lançamento, o filme ainda se mostra atual e ainda impressiona quem o assiste. O curta não faz uma crítica apenas a Ilha das Flores, e sim à uma realidade que infelizmente não é tão incomum em todo o mundo. Uma realidade que muitos ignoram por diversos motivos, mas que está lá para quem conseguir ou quiser enxergar.


Não deixe de participar do nosso top comentarista do mês

16 comentários:

Deixe seu comentário