[FILME] Mudbound

Êxtase,  estado emocional em que o indivíduo se sente fora de si ou em transe, caracterizado pela intensificação extrema de variados sentimentos. É em estado de êxtase que Mudbound te deixa após acabar de assisti-lo. Não é atoa que a pessoa que vos escreve teve que refletir sobre esse longa durante 3 dias, antes de decidir o que escrever nessa crítica. A Netflix está finalmente passando a perceber que produzir filmes culturais e de um cunho social relevante podem expandir o público da plataforma de streaming, atraindo as pessoas que vêem o cinema com algo que pode entregar muito mais que puro entretenimento.

Nota: 5/5
Baseado no livro de Hillary Jordan, o longa se passa em dois períodos: durante e pós 2º Guerra Mundial. Duas famílias entrelaçam suas histórias vivendo no delta do Rio Mississípi no estado de mesmo nome que fica na região sudeste do Estados Unidos. Mississípi naquele período era um estado estadunidense que servia as Leis de Jim Crow, um conjunto de leis que concedia direitos sociais diferenciados para negros e brancos. Juntas (as duas famílias) enfrentam a hierarquia social bárbara numa paisagem implacável. Ao mesmo tempo que elas lutam uma batalha em casa e outra no exterior.
A direção de Dee Rees opta por uma forma de contar a história do filme que não é muito usual, mas que funciona muito bem para desenrolar final da trama. O filme inicia com o final da narrativa que está prestes a ser contada (parece meio complicado, né?), e a partir de então é feito o uso de flashbacks para mostrar tudo que aconteceu para chegar até aquele momento do longa. Vale ressaltar que a Rees opta por vários flashbacks e narrações em off durante "Mudbound" para demonstrar como os personagens se sentem e pelo que passaram para se tornarem aquelas pessoas, estas se mostram as únicas formas de se apresentar estes personagens que vivem isolados do mundo e que se mostram muito fechados em um eterno silêncio que os acompanha em conjunto com aquele ambiente. Mesmo utilizando esses artifícios, a história se mantém coesa através de um roteiro sólido e coerente, algo que não é muito fácil de se fazer.
Rees constrói a narrativa não só com as múltiplas narrações dos personagens, mas ela deixa cada persona brilhar e cria pequenos arcos em um determinado momento de "Mudbound" para que o espectador crie uma relação de empatia ou antipatia com os personagens, o que parece ser proposital para que ao final do filme, você sinta com muito mais profundidade, sentimento e tensão todos os acontecimentos que irão se desenrolar no 3º ato, fazendo a trama eclodir como um vulcão.
"Mudbound" te proporciona muito mais que um drama sobre discriminação e racismo, o filme estuda todo o ambiente que gira ao redor das famílias. A trama explora os efeitos que a guerra pode causar nas pessoas que testemunharam os acontecimentos de uma guerra, como as melhores amizades podem surgir das coisas e das pessoas mais inesperadas desse mundo, o alcoolismo, o modo como o amor familiar pode superar diversos obstáculos, te questiona sobre o papel da mulher na família; todos esses temas são abordadas de forma muito competente pela direção. O longa também faz criticas pesadas ao país contraditório que é o Estados Unidos que dizia desaprovar o comportamento racista e discriminador da Alemanha Nazista, mas que permitia naquele mesmo período que movimentos extremistas e reacionários agissem no sul do país.
O elenco do filme que já recebeu vários prêmios, é o grande destaque do filme. Todas as interpretações são memoráveis, cada um com seu espaço de brilho durante "Mudbound". Carey Mulligan e Mary J. Blidge fazem duas mulheres com uma força de superação inspiradora, elas vão ganhar sua admiração. Johnathan Banks interpreta a personificação do racismo, Banks se saí tão bem, que você sente ódio do personagem sempre que ele aparece em cena. Jason Clarke e Rob Morgan são os 2 chefes de família, cada um com suas responsabilidades e realidades diferentes, as interpretações realistas deles te fazem conhecem melhor esse lugar que é o Mississípi; Rob Morgan entrega o melhor dialogo do longa. Jason Mitchell e Garrett Hedlund são os mais carismáticos, as cenas em que eles aparecem juntos são de um primor interpretativo que merece elogios.

Além da direção, roteiro e elenco; "Mudbound" possui outras qualificações. A fotografia da Rachel Morrison é belíssima, principalmente nas cenas do entardecer, que simboliza o fim de algum arco ou sequência durante o filme. A edição Mako Kamitsuna é muito fluida na intercalação entre as cenas. A trilha musical foi muito bem escolhida, vale ressaltar a atenção que o espectador deve ter com a melodia da 1º primeira música dos créditos, pois ela traduz grande parte da mensagem que o longa quer te transmitir.
"Mudbound", um filme com um título desses não pode ser mais claro, o Mississípi com sua lama e sujeira fazem parte de todo o longa, e de alguma forma todos os personagens acabarão na lama em algum momento. "Mudbound" é sentimental, realista, impactante quando é preciso, implacável, audacioso e arrepiante; e ainda por cima demonstra que o extremismo e a discriminação estão totalmente ligadas à covardia. Com uma resolução final dolorosa, trágica e brutalmente realista; e que te faz derramar lágrimas, mas também deixa esperança por existir uma luz no fim do túnel. "Mudbound" é um dos melhores filmes do ano e o melhor já produzido pela Netflix.

PS.: O longa só vai ser lançado no Brasil pela Netflix no dia 22 de fevereiro.

2 comentários:

  1. Pelo visto esse livro e essa série são meio que drama eu li um livro da da kathryn stockett que me lembra muito essa história e eu fiquei tão apaixonada pelo livro e tanto pelo filme chamado Histórias Cruzadas que eu fiquei com muita vontade de assistir esse filme

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    1. Histórias Cruzadas tem um drama muito mais leve que Mudbound, até pelo momento histórico em que os dois filmes se passam. Histórias Cruzadas se passa nos anos 60, enquanto Mudbound nos anos 40 (época em que a situação de racismo no sul do EUA era muito mais grave que nos anos 60).

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