[Resenha] Entre Irmãs - Frances de Pontes Peebles

Nos anos 1920, as órfãs Emília e Luzia são as melhores costureiras de Taquaritinga do Norte, uma pequena cidade de Pernambuco. Fora isso, não podiam ser mais diferentes.

Morena e bonita, Emília é uma sonhadora que quer escapar da vida no interior e ter um casamento honrado. Já Luzia, depois de um acidente na infância que a deixou com o braço deformado, passou a ser tratada pelos vizinhos como uma mulher que não serve para se casar e, portanto, inútil.

Um dia, chega a Taquaritinga um bando de cangaceiros liderados por Carcará, um homem brutal que, como a ave da caatinga, arranca os olhos de suas presas. Impressionado com a franqueza e a inteligência de Luzia, ele a leva para ser a costureira de seu bando.

Após perder a irmã, a pessoa mais importante de sua vida, Emília se casa e vai para o Recife. Ali, em meio à revolução que leva Getúlio Vargas ao poder, ela descobre que Luzia ainda está viva e é agora uma das líderes do bando de Carcará.

Sem saber em que Luzia se transformou após tantos anos vagando por aquela terra escaldante e tão impiedosa quanto os cangaceiros, Emília precisa aprender algo que nunca lhe foi ensinado nas aulas de costura: como alinhavar o fio capaz de uni-las novamente.

Título: Entre Irmãs
Autora: Frances de Pontes Peebles
Editora: Arqueiro
Páginas: 576
Ano: 2017


Avaliação (de 0 a 5): 4,0


Como é bom poder ler uma história tão rica e bem contada sobre o Nordeste! Com exceção dos livros espíritas, eu não vejo muito livros que remontam a épocas antigas da minha região (e nem do Brasil, para falar a verdade). 

Apesar de Entre Irmãs se passar em Pernambuco, encontrei muitas semelhanças com as histórias que eu ouvi da minha avó aqui no Ceará. Abrir essas páginas é mergulhar no tempo e realmente se sentir naquela época. Para quem não conhece muito sobre o Nordeste em geral, é um convite para conhecer uma história muito interessante.


Um breve resumo


A história é divida entre duas narradoras: Emília, uma jovem bonita e sonhadora, que anseia por viver na capital, Recife; Luzia, que sofreu uma queda de uma árvore na infância e ficou com o braço aleijado, sendo apelidada de "Vitrola". As duas são irmãs, órfãs e vivem com a tia em Taquaritinga do Norte, no interior de Pernambuco, dividindo o ofício da costura. 

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A vida segue na normalidade, com as três mulheres vivendo como costureiras, até que o Carcará, um cangaceiro temido na região, fica fascinado por Luzia e a leva para o seu bando. Desesperada por se ver longe da irmã, Emília ainda enfrenta a morte da tia e o falatório sobre como uma moça solteira não pode viver sozinha em casa. É aí que ela conhece Degas e, mesmo sem muito amor, casa-se com ele e se muda para Recife, onde conhece a alta sociedade pernambucana.

Apesar de viverem realidades tão distantes, a vida faz com que os caminhos de Luzia e Emília se cruzem de alguma forma, em meio às transformações do país. 


O que eu achei da história


Se você busca puramente um romance ou até mesmo um drama mais rápido sobre duas irmãs (que tanto vemos em autoras como Sarah Jio), essa história não é tanto isso. Entre Irmãs é o panorama de uma época, um livro que é comparado com o clássico A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, ou Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez (dois livros que ainda não li).

Então, temos o drama, o amor das irmãs, o romance (ainda que tímido) entre Luzia e o Carcará, mas temos também a Revolução de 32, a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, as primeiras censuras, o fenômeno dos cangaceiros no sertão nordestino e a grande Seca que assolou a época. 

Por isso, a história não é fluida como um romance mais rápido, mas para quem aprecia um grande drama histórico, com personagens reais e reprodução fiel aos acontecimentos da época, esse livro é uma boa pedida. Pena que ele não é tão conhecido, porque merece muito! 

Essa vida não é como as roupas. Não podemos vesti-la hoje e tirá-la amanhã. Mesmo que tivéssemos terras, ninguém nos chamaria de fazendeiros. Continuaríamos sendo cangaceiros. Pior: cangaceiros que desertaram. Vargas continuaria querendo a nossa cabeça (...) Não há escapatória para gente como nós.
Página 397

Como eu já falei acima, consegui me sentir naquela época mesmo. Uma coisa é a gente ler romance histórico da Inglaterra e outra é ler um livro que situa os seus personagens em lugares parecidos ao que podemos ver com frequência nos museus daqui. É conhecer costumes, superstições e produtos (como a revista FonFon) que você já ouviu de pessoas mais velhas. É lindo conhecer a nossa história (ainda que, repito, Pernambuco não seja a mesma coisa do Ceará. Falo isso porque tem gente que pensa que o Nordeste é coisa só).

Luzia e Emília são personagens incríveis e fortes, cada uma ao seu modo. Luzia tem um apelo ainda mais dramático, por viver tantas emoções e sofrimento na seca inclemente no meio da caatinga. Acho que as duas e o Carcará foram os personagem mais bem desenvolvidos. Não achei os demais personagens - embora muito bem representados para a sua época - profundos demais. Outra coisa que me impede de dar a nota máxima foi o final, que teve a sua emoção de um lado, mas de outro nem tanto (quem ler vai saber).

A pequena Taquaritinga do Norte, onde começa a história.

Mas gente, leiam esse livro! Mesmo que não seja um romance propriamente dito (embora o começo da história de Luzia e o Carcará tenha um pouco de romance, sim) ou um drama rápido, vale muito a pena descobrir uma literatura brasileira que faça a gente conhecer de perto tanto a História quanto nós mesmos, o tipo de povo que somos.

Obs.: esse livro foi lançado primeiro em inglês, The seamstress, porque a autora nasceu em Pernambuco, mas viveu a maior parte da vida nos EUA. Ele foi traduzido para 9 idiomas, encantou vários gringos com as histórias dos cangaceiros e só depois veio para o Brasil como "A Costureira e o Cangaceiro", pela Nova Fronteira.

Obs 2.: Essa edição, com esse nome, diz respeito ao filme lançado com a Marjorie Estiano e a Nanda Costa (inclusive, foi depois do trailer do filme que eu fiquei com aquela sensação de "caramba, isso poderia ser um livro incrível". E eis que a Arqueiro lança a obra logo depois!)

Obs 3.: O filme não teve esse sucesso todo de bilheteria (infelizmente!), mas vai virar minissérie da Globo agora em janeiro!

Obs 4.: Para quem ficou passada com o tanto de informações sobre os cangaceiros, saiba que a autora se inspirou em Antônio Silvino, de Pernambuco, para escrever o Carcará. Não sei se quem não é do Nordeste sabe, mas as vestimentas e as lendas dos cangaceiros (um exemplo de bandidagem para umas pessoas e de heroísmo para outras) são muito incorporadas na cultura de diversos estados daqui. 

Obs 5.: Quem quiser conhecer mais sobre os cangaceiros, pode ver uma galeria de fotos nesta reportagem ou ver as filmagens captadas em 1936 pelo cameraman Benjamin Abrahão.

Confira também o trailer do filme:



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