[Resenha] A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil - Becky Chambers

(...) O gatilho principal é a construção de um túnel espacial que permitirá ao pequeno planeta do título participar de uma aliança galáctica. Mas o que realmente torna único esse romance on the road futurístico e muito divertido são seus personagens. Instigantes, complexos, tridimensionais. A autora optou por contar a história de gente como a gente, ainda que nem todos sejam terráqueos, ou mesmo humanos. A tripulação da nave espacial Andarilha é composta por indivíduos de planetas, espécies e gêneros diferentes, incluindo uma piloto reptiliana, uma estagiária nascida nas colônias de Marte e um médico de gênero fluido, que transita entre o masculino e o feminino ao longo da vida. Temas como amizade, força feminina, novos conceitos de família, poliamor e racismo fazem parte do universo do livro, assim como cada vez mais fazem parte do nosso mundo.

Título: A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil
Autora: Becky Chambers
Editora: DarkSide Books
Ano: 2017
Páginas: 352

Avaliação (de 0 a 5): 4,0


Sabe que eu nunca percebi que os personagens de ficção científica reproduzem exatamente o que pensamos na Terra, mesmo com a história se passando em realidades totalmente diferentes? Claro, você até pode dizer, eles foram criados por pessoas que moram na Terra! Mas eis então que eu leio A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil e percebo que as histórias podem ser contadas sob um ponto de vista alienígena... Diferente de nós em tantos aspectos como podemos ser diferentes uns dos outros.


Ficção científica que representa a nossa realidade


Antes de falar do livro, vou fazer uma breve (é rápida, prometo) contextualização. A ficção científica revolucionou a literatura (e até a ciência), mas continuou sendo escrita por/para homens brancos heterossexuais. Temos exceções? Claro que temos. Mas se você olhar bem, os protagonistas das histórias representam apenas uma parcela da nossa sociedade. E assim era de praxe para a maioria dos clássicos por um bom tempo.

Mas estamos em um mundo em que a Internet e o compartilhamento de informações permitiram que mulheres, negros(a), asiáticos(a), público LGBT e muitas outras minorias passassem a ter uma voz e, portanto, protagonizassem as próprias histórias. E se o livro é o retrato de uma época, Becky Chambers soube capturar perfeitamente a nossa. 

Os humanos não são a principal raça em A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil. Na nave Andarilha, eles dividem espaço com diversas espécies totalmente diferentes. E na galáxia, os humanos são uma espécie menor, sem grandes poderes. Desta forma, podemos nos deparar com a diversidade! E como a amizade, amor, lealdade e o respeito podem existir entre espécies. Isso te lembra as discussões sobre aceitar diferenças?

Uma narrativa fragmentada e com personagens incríveis


Apesar de eu ter gostado bastante, o único defeito que eu apontaria (que nem é bem um defeito, mas uma escolha da autora) é que a narrativa é fragmentada, sendo dividida em pequenos capítulos com aventuras ou situações que algum personagem está envolvido. 

Claro que todas essas pequenas aventuras convergem para a ação no final, mas o leitor pode até se perguntar se eles realmente vão para o planeta hostil. Mas assim que o final chega, a narrativa toma fôlego e parte para a aventura!




Os personagens é que são o grande destaque. Logo vamos pensando que a misteriosa humana Rosemary é a protagonista, mas logo vemos que o capitão Ashby esconde uma história de amor interespécie, a navegadora e aandriskana Sissix (que vem de uma raça livre de pudores e precisa se controlar para não chocar os humanos) tem saudades de casa, a mecânica Kizzy sempre tem as ideias mais malucas, o mecânico Jenks vive um amor impossível, além da diferença impressionante nas espécies de Ohan e Dr. Chef. Todos reúnem lições de vida e dá vontade de ser amiga deles na vida real.


Um livro diferente! Será que vale a pena?


Acho que A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil vai chocar as mentes mais fechadas, então provavelmente alguém que sequer tolera um beijo gay na novela não vai gostar da leitura. E quem procura um romance mais clássico (espécie com espécie, gênero com gênero) pode estranhar algumas passagens do livro, mas nada do que entender o contexto espacial não resolva.  E acho que quem é fã de uma narrativa mais amarradinha pode não gostar do ritmo da história, mas não deixe que isso seja um empecilho para você descobrir este livro!

Tudo o que você pode fazer, Rosemary, assim como todos nós, é trabalhar para se tornar uma força positiva. É a escolha que todo sapiente deve fazer todos os dias da sua vida. O universo é aquilo que fazemos dele. Cabe a você decidir qual papel quer desempenhar.
Página 184

Recomendo fortemente para os fãs de ficção científica mas não somente para estes. Recomendo também para quem gosta de descobrir novos mundos, histórias inteligentes e diálogos fascinantes! E só de olhar a capa, já dá pra se apaixonar, né? A DarkSide fez um trabalho belíssimo. Agora, resta a dúvida se a editora vai publicar as continuações, mas garanto que o final é fechadinho e dá pra ler só este volume.

Obs: este livro está na minha lista dos melhores de 2017. Confere lá a lista completa!

A série Wayfarers
- A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil
- A Closed and Common Orbit
- Record of a Spaceborn Few 

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