[Resenha] Sempre Vivemos no Castelo - Shirley Jackson

Merricat Blackwood vive com a irmã Constance e o tio Julian. Há algum tempo existiam sete membros na família Blackwood, até que uma dose fatal de arsênico colocada no pote de açúcar matou quase todos. Acusada e posteriormente inocentada pelas mortes, Constance volta para a casa da família, onde Merricat a protege da hostilidade dos habitantes da cidade. Os três vivem isolados e felizes, até que o primo Charles resolve fazer uma visita que quebra o frágil equilíbrio encontrado pelas irmãs Blackwood. Merricat é a única que pressente o iminente perigo desse distúrbio, e fará o que for necessário para proteger Constance. Sempre vivemos no castelo leva o leitor a um labirinto sombrio de medo e suspense, um livro perturbador e perverso, onde o isolamento e a neurose são trabalhados com maestria por Shirley Jackson.

Título: Sempre Vivemos no Castelo
Autora: Shirley Jackson
Editora: Suma de Letras
Ano: 2017
Quantidade de páginas: 200

Avaliação (de 0 a 5): 4,0


Um vilarejo que teme uma casa dita mal-assombrada é uma temática óbvia para um escritor de terror. Mas Shirley Jackson escolhe o caminho inverso. Ela decide contar o ponto de vista das pessoas que moram naquela casa e como as coisas chegaram a esse ponto.

Vou logo avisando: Sempre Vivemos no Castelo não é um livro para qualquer leitor. Isso quer dizer que é um terror para dormir com as luzes acesas? Não exatamente. As cenas macabras não pulam aos nossos olhos, mas são construídas de forma sutil e finalmente reveladas de forma despreocupada, deixando o nosso coração (o meu, pelo menos) em choque.


Como funciona a narrativa

Ao contrário de escritores como Stephen King, Shirley Jackson não vai te dar a história de bandeja. Acho que é por isso que muita gente achou o livro esquisito. Essa é uma característica de grandes livros de literatura (algo que pode ser visto até em alguns contos de Edgar Allan Poe): o que nos é apresentado é um recorte de uma história muito maior que já aconteceu. Alguns diálogos e detalhes é que vão descortinando o que tudo aquilo significa.

Temos Mary Katherine "Merricat" e Constance Blackwood, que vivem reclusas na imponente casa da família, vivendo somente com o tio Julian e o gato Jonas. A única vez em que as pessoas do vilarejo veem alguma delas é quando Merricat vai comprar mantimentos uma vez por semana. Todos as odeiam, as crianças fazem piada com elas e Merricat os odeia na mesma intensidade.

Isso porque Constance foi acusada de matar a família inteira colocando veneno no açúcar em um jantar, do qual sobreviveram apenas ela, Merricat e tio Julian. Apesar do passado sombrio, as irmãs vivem felizes, até que o primo Charles aparece para bagunçar toda a ordem pré-estabelecida e desencadear consequências terríveis.

O que dizer desse começo?

Como são as personagens


Primeiro que ninguém é exatamente "gostável". Merricat tem 18 anos, mas se comporta como uma criança maldosa o livro inteiro (eu cheguei a esquecer que ela já era quase uma adulta), cheia de superstições, rancores e sentimentos raivosos. Constance, a mais velha, tem um temperamento tão doce que parece que ela simplesmente não tem uma personalidade, sendo levada pelos pensamentos personagens mais voluntariosos da história.

Tio Julian é o único que pode informar a nós, leitores, o que realmente aconteceu. Quem será que matou os Blackwood? Porque Constance faz todas as vontades de Merricat? O problema é que a saúde dele ficou debilitada depois do envenenamento e ele não lembrou de quase nada. Já Charles é tão irritante que dá para sentir empatia até de Merricat perto dele.

Mas não é porque eles são tão complicados que a história não pode ser fluida. Mesmo sem nenhum personagem confiável, prosseguimos a leitura em busca de alguma pista na fala deles, qualquer dica que nos faça entender porque as coisas aconteceram daquela forma.

Vale a pena ler Sempre Vivemos no Castelo?

Vale sim, mas não vá achando que é um livro de terror comum. Ele é literário, então a narrativa exige mais de você, embora as páginas passem voando em uma linguagem ágil e fluida. Mas a compensação é que você termina o livro e fica pensando, imaginando e conjecturando teorias sobre a história.

Esse foi um livro que me deixou super pensativa e inquieta pra discutir a minha visão sobre os fatos. Eu achei uma escrita incrível, com pequenas pistas meticulosamente jogadas aqui e ali. Temos que desvendar o mistério através da narração rancorosa de Merricat e em muitos casos a nossa imaginação precisará nos guiar para preencher algumas lacunas.

E o final! Gente! Shirley Jackson não precisa criar uma mitologia assustadora para nos dar arrepios com as últimas páginas. Porque ali é uma vida descrita como se fosse outra qualquer, mas com implicações tenebrosas no passado. E essa sutileza foi essencial para que o sentimento de terror fosse transmitido.

A resenha ficou enorme, mas eu adorei esse livro. Só não dou a nota máxima porque a narração da Merricat pode ser um pouco irritante às vezes, mas eu recomendo para todos os que são fãs de uma história bem escrita, acima de qualquer coisa.


Curiosidade!
- Sempre Vivemos no Castelo vai ganhar uma adaptação para os cinemas estrelada por Alexandra Daddario ( Percy Jackson). Taíssa Farmiga (American Horror Story), Sebastian Stan (Vingadores: Guerra Infinita) e Crispin Glover ( Alice no País das Maravilhas). Dá uma olhada na foto:

Constance e Merricat. Fonte: IMDB

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